Weird World

Eu poderia esperar por qualquer coisa. Uma loira siliconada e oxigenada, no estilo ‘coelhinha da Playboy’. Uma não, três. Coisas típicas de Nickolas. E o que eu vi foi exatamente ao contrário. Não, duh. Não tinha três homens com ele - pelo menos eu não duvidava de sua masculinidade.
Seus olhos estavam vermelhos, com olheiras e a pele enrugada de um jeito que até um cego notaria que ele passara os dias chorando. Cabelos bagunçados, mas não daquela forma que eu adoro. Bagunçados porque ele havia se torturado por minha causa. Exatamente igual a mim.
Ele abriu a boca para me enxotar - eu acho -, mas eu fui mais rápida.
- Não vim para brigar.
Sua expressão tornou-se carrancuda, com desprezo. “Ele me odeia”, foi o que pensei de imediato. Porém, bem lá no fundo, eu sabia que o amor não tinha morrido. Bastava que ele deixasse renascer ou morrer de uma vez por todas. Eu queria lutar pela primeira opção, nem que estivesse sozinha nessa batalha. Ah, eu não o deixaria escapar. Nunca mais. Apenas eu vivera dias torturantes desejando que ele estivesse ao meu lado para me abraçar e dizer que a tempestade passaria.
- Seja breve - ele pediu ríspido. Sua voz saiu como um soco: rápido e definitivo.
Pela milésima vez, encarei seus olhos raivosos - eu não me cansava de repetir esse ato; mesmo que o coração apertasse, a garganta ardesse e as lágrimas insistissem em sair. Era irresistível. Nesses momentos em que o coração se sobressaía e manipulava todo meu autocontrole sentia-me numa espécie de piloto automático. Mordi o lábio inferior ao notar que ele mantinha-se numa posição de defesa: posição ereta, mandíbula contraída, braços cruzados e os olhos semicerrados. O silêncio reinava e a cada segundo eu imaginava inúmeras coisas que ele estava prestes a fazer.
E minha ficha finalmente caiu.
Ele não queria minha presença, quanto menos ouvir minha voz. Estava esperando o momento em que eu levasse meu orgulho ao chão e depois o arrastasse comigo para o meu solitário apartamento. A vontade de Nickolas era que eu me humilhasse. Não me humilharia, mas também não iria contra seu desejo.
Milhares de xingamentos se passavam em minha cabeça e eu me controlava para não cuspi-los na cara de Nickolas. Quer uma breve lista? Alguns adjetivos zoomórficos e subumanos para ele: arrogante, estúpido, grosso, palhaço, amargo, acéfalo, materialista, ciumento, ogro, animal, fraco, duplamente fraco, entre outras coisas piores. Desabafei, obrigada. (n.a: meu raciocínio foi bloqueado justamente quando eu preciso x.x)
Estava decidida no que faria a seguir. Dei um minuto a ele para que abrisse aquela deliciosa maldita boca e falasse ao menos uma vogal. Claro que tive que contar para não estourar minha paciência - que já era mínima. Passou um minuto e nada. Pronto, me irritei. E quando ele me irrita, eu o ignoro. Fechei os olhos e respirei fundo. Abri-os novamente e ele continuava do mesmo jeito.
“Obrigada por me poupar desse esforço”, pensei.
Virei às costas e saí pisando fundo. Então era isso? Ele teve oportunidade de se reconciliar comigo nas mãos e em vez de fechá-la, deixou-a escapar. Ele simplesmente me deixaria ir embora assim, sem esforços? Ah, como eu estava enganada. Nickolas finalmente manifestou-se usando um golpe baixo. Baixíssimo. Ouvi ao longe sua voz rouca, incrivelmente sexy e cínica dizer um dos adjetivos que havia planejado falar a ele:
- - ele riu debochado. - Você é uma fraca.
Perdi a linha da consciência de meus atos. Eu não responderia por mim! Mostraria a Nickolas que fraca era a mãe dele.

Virei-me lentamente e seu sorriso debochado sumiu. Pudera! Eu deveria estar no mínimo vermelha de raiva e soltando fumacinha pelos ouvidos. E eu não ficaria parada ali, sem ação. Ele provocou, ele leva. Conforme me aproximava, Nickolas ia ficando mais assustado. Eu sabia que ele nunca vira meu lado agressivo antes. Estava prestes a tomar conhecimento e de uma forma inesquecível.
- Pensei que você não falasse mais - disse a primeira coisa que me veio na cabeça. Eu sei que foi totalmente simples.
- Que divertido! Numa coisa concordamos - ele sorriu falsamente.
- Tanto faz - resmunguei.
- E eu pensei que você não fosse tão fraca - ele implicou novamente.
Já tinha até esquecido o porquê ficara com raiva dele. Ok, nem tanto. Acho que nem uma pessoa com Mal de Alzheimer esqueceria. Dei um passo à frente, ficando mais perto de Nickolas. Se ele batesse a porta, era uma vez meu nariz. Então, comecei meu breve discurso.
- Fraca? - soltei uma gargalhada. Escandalosa, digamos de passagem. - Se tem existe alguém fraco, esse alguém é você, Nickolas - disse apontando para ele. - Fraco o suficiente para não enfrentar uma situação complicada e encarar a verdade.
- Veja só - ele retomou o tom irônico. - A suja falando do mal-lavado. Perfeito - ele bateu palmas. Digo e repito: feito um retardado. - A Miss Santidade que se revelou a maior cara-de-pau ao colocar chifres no pobre coitado do namorado chifrudo - ele negou com a cabeça sinalizando desaprovação.
E para cada palavra que saía de sua boca, meu nível de paciência descia e o de raiva subia. Nada melhor quando se quer descontar em um indivíduo canalha como Nickolas.
- Pela quinta vez, sexta com essa, eu vou repetir e quero que você ouça, entendeu? - ele ergueu as sobrancelhas e falsificou uma expressão interessada. Não me importei, assim mesmo terminei o que iria dizer: - NÃO ACONTECEU NADA, PORRA! - gritei com todo o ar de meus pulmões. Nickolas fez uma careta.
- Poderia poupar meus ouvidos? - ele disse calmamente. - É que eu não sou surdo, mas entendo se você for... - deu de ombros e foi aí que eu deixei explodir.
- Quer saber? Você é um tremendo de um canalha! Nunca vi mais cínico - olhei com raiva em seus olhos que demonstravam indiferença.
Percebi que não era para aquilo estar acontecendo. Meu verdadeiro plano era que sentássemos e conversássemos como pessoas civilizadas. Mas eu estava indo contra tudo o que tinha mentalizado durante o trajeto da praça até a casa de Nickolas. Eu não estava apenas o maltratando. Estava fazendo pior. Detonando as últimas lembranças boas que guardara dele. Estas, agora, iam se desfazendo aos poucos. E a última imagem que eu queria levar de Nickolas era a de um homem sem escrúpulos. Não vou mentir que me arrependera de ter sido mal-educada. Porém, as palavras são jogadas ao vento e não podemos puxá-las de volta. Desejei voltar no tempo e simplesmente tê-lo ignorado e seguido meu caminho para a praça, onde obviamente, me aguardava. Infelizmente o coração não escolhe a quem amar. E eu não amava . Amava Nickolas, de uma maneira louca e obsessiva.
Sua voz despertou-me de meus pensamentos.
- Continue e despeje tudo o que sente - ele falou com raiva. - Antes comigo do que com aquele seu amante.
Sem pensar, sem raciocinar, levantei a mão e estava prestes a acertar com uma bofetada aquele rosto que um dia eu acariciei. Era um instinto de proteção e alerta - teria a mesma reação com . Um aviso: nunca ouse julgar alguém que amo ou gosto. Com sorte, ele agarrou minha mão no ar, impedindo que eu cometesse um ato. Agradeci mentalmente, pois sabia que me arrependeria amargamente depois. Amoleci minha mão e ele a largou.
- Cansei de toda essa sua infantilidade - ele disse desapontado e com ódio. Ele tinha o costume de controlar sua língua, às vezes.
Uma faca foi cravada em meu peito no momento em que vi seus olhos cheios de lágrimas. E um desespero tomou conta de mim no instante em que ele bateu a porta, me deixando sozinha. Revi todas as cenas em pensamento. Fiz um flashback de nossa curta briga. Refiz minha postura e cheguei à conclusão que não havia terminado e o que tinha proferido fora pouco.

- Nickolas - eu bati na porta, mas não obtive resposta. Bufei e continuei com o mesmo movimento por vagos dois minutos. - Abre a porra dessa porta - pedi mais uma vez.
- E se eu não quiser? - ele respondeu seco. Ouvi um barulho estranho e notei que vinha dele. Nickolas estava chorando por minha culpa. Olá, dê boas-vindas ao peso na consciência.
- Então não abra, oras - rebati.
Revirei os olhos, repleta de raiva. A minha vontade era de dar um murro naquela porta de madeira, derrubá-la com toda a força que conseguisse, olhar bem fundo nos olhos de Nickolas e... Beijá-lo como se o mundo fosse acabar em trinta segundos. Não, não. Eu aproveitaria para jogar na cara dele todo o sofrimento que aguentei em silêncio. Mas acho que beijá-lo seria mais produtivo e melhor. Ah, esquece.
- Faça-me um favor? Honre o que você tem no meio das pernas e gire essa maçaneta logo. Não suporto mais essa enrolação - falei. Sem pensar muito, é claro. Mas eu precisava continuar juntando argumentos. Nem que saísse a pior das asneiras.
- Suma daqui e me deixa em paz - ele disse com a voz autoritária além do normal.
Pensando pelo lado de que se ele não tivesse acabado de me chamar de fraca, desistir seria mais fácil. Somente no caso da antiga . Essa nova, que vos fala, é totalmente decidida e persistente. Não é qualquer coisa que vai me expulsar daqui. Muito menos Nickolas. Já que era a ele quem eu queria atingir.
- Vá se ferrar, Nickolas Gene Carter - eu gritei. - Nem na cama você presta pra alguma coisa! - Ah, essa eu tenho certeza que doeu. Porque até eu me arrependi depois.
Estranhei com o repleto vazio no ar depois de minha frase. Nickolas não chorava mais, nem esbravejava pela ofensa. Fui ameaçadoramente surpreendida quando, num passe de mágica - ou eu deveria dizer treva? -, Nickolas abre a porta com uma força inescrupulosa.

“Coitada da parede”, pensei. “E de mim, agora”.

- Cale a boca - ele disse com raiva. E eu esperava que tudo acontecesse, menos o que ele faria a seguir.
Puxou-me com força pela cintura e resgatou-me num beijo selvagem. Desesperada por seu gosto, entrelacei meus braços em seu pescoço e cravei-lhe as unhas. Nickolas soltou um grito abafado pelos nossos lábios colados. Enterrou uma mão em meus cabelos - enquanto a outra ainda prendia nossos corpos, que imploravam um pelo outro. Sem noção de como conseguimos nos mover, apenas percebi que ele batera a porta quando estávamos no topo da escada. Nos afastamos um pouco, ofegantes - ele escorado em uma parede e eu em outra -, tentando normalizar nossas respirações em vão. Num segundo nos olhamos e no outro estávamos juntos de novo. Vou confessar que é impossível resistir. E eu não sei de onde tirei forças para vê-lo e não me atirar em seus braços. Sei que é tarde para confirmar, mas ele tem razão. Eu sou fraca. Hum, voltando à pegação... Abri a porta do quarto de Nickolas com o pé e quase caímos juntos porque ele soltara seu peso em mim. Ele me pegou no colo e me jogou na cama - atirando-se em cima de mim, logo depois. Tirei sua blusa e ele praticamente arrancou a minha. Ele lambia minha barriga enquanto eu me contorcia de desejo. Inclinei-me a fim de beijá-lo e antes de fazer isso, encontrei seus olhos. Neles eu vi fogo. Muito fogo. Sussurrei um ‘eu te amo’ e ele não me respondeu. Não por não ter querido, mas porque avancei para sua boca, sem deixá-lo raciocinar direito, e ele a entreabriu. Deslizou as mãos em minhas costas e delicadamente tirou meu sutiã, fazendo com que eu me arrepiasse por completo. Trocamos de posição e quem estava por cima agora era eu. Deitei-o e me pus a beijar-lhe o pescoço. Senti uma pressão na coxa e fiquei extasiada, alucinada, louca, ou o que preferir. Beijei Nickolas antes de tirar-lhe as calças e deixá-lo apenas trajando sua cueca Calvin Klein preta. Ele sorriu safado e eu demoníaca. Não sei bem o que ele fez, mas quando dei por mim, ele estava por cima de novo. Repetiu meus movimentos e me deixou apenas de calcinha. Não conseguíamos e não poderíamos esperar mais tempo. Em cinco minutos, estávamos nus, abraçados e sorrindo como idiotas.
E é assim que acabam nossas brigas. Na cama.

Acordei e pela primeira vez temi abrir os olhos. Não queria descobrir que talvez tudo não passara de um doce e mágico sonho. Bocejei ainda com um pouco de sono. O peso que ficara a noite inteira sobre mim agora estava vazio. Ainda de olhos fechados, passei a mão pela cama. Sorri ao compreender que o que acontecera fora real. Também notei um lugar vazio. Imediatamente senti falta desse alguém. Derrotada pelo ainda persistente sono, deixei-me cair exausta no travesseiro ao lado. Foi inalando aquele doce perfume que adormeci novamente.
Despertei com a luz do sol refletindo em meu rosto. Nickolas abrira a janela, deixando que uma brisa gostosa passeasse pelo cômodo. Esfreguei repetidamente os olhos para me certificar que não estava sendo hipnotizada pelo ser que trocava de roupa a poucos centímetros de distância de onde eu o observava. Aqui eu, outra vez, babando por Nickolas. Ele sorriu largamente ao notar que eu o fitava de uma maneira descarada. Nickolas piscou para mim e eu suspirei apaixonada. Oh! Sensações adolescentes à flor-da-pele. Era o que eu parecia e era exatamente como eu me sentia. Uma adolescente vangloriando seu primeiro amor.
Acompanhei a blusa passar lentamente pelo pescoço e escorregar logo depois em seu corpo másculo. Ele passou a mão no cabelo, bagunçando-o e fazendo com que gotículas de água respingassem em mim. Como eram geladas, eu quis me proteger. Puxei o edredom e me cobri até o topo da cabeça. Ouvi uma risada maléfica e não pude raciocinar direito. Foi curto o espaço de tempo entre o riso de Nickolas e seu corpo jogado em cima de mim. Ele me apertava e eu já estava sufocando. Precisava de ar e não estava sendo capaz de respirar com aquele ser impedindo a transição de oxigênio. Resmunguei algo incompreensível que, pra falar a verdade, nem eu mesma consegui entender. Foi tipo ‘safdimf demif cfiamf’.
- Não escutei - Nickolas disse debochando de mim. Tentei socar seu peito em vão debaixo do tecido preto que me cobria. Queria avisá-lo que era pra SAIR DE CIMA.
Nickolas rolou para o lado vazio da cama e eu finalmente pude respirar. Puxei o ar diversas vezes e quando a brisa cruzou por mim percebi que suara. ‘Ew!’, foi a primeira coisa que veio em minha mente. Uma ideia sacana reluziu minha ilustre mente. Desviei a atenção para Nickolas. Ele parecia tão limpinho e cheirosinho. Até demais. E... Por que não? Não contive uma gargalhada antes de avançar em Nickolas. Era muita maldade de minha parte. Mas ele afastou-se antes que pudesse melecá-lo, o que me causou uma dor no nariz, já que dei de cara com o travesseiro. Ele sibilou um ‘outch’ e sorriu de canto. Beleza, preze o seu banho.
- Desculpa - ele pediu sincero -, mas você tá mais molhada que parede em dia úmido - deu de ombros. - Além do mais, eu recém saí do banho. Acho que a Senhora Porquinha necessita de um urgente - riu.
- Desculpas aceitas - endireitei minha postura na guarda da cama. - Mas como eu vou tomar banho se... - ele apontou para uma mala estirada no chão. Nossa, que eficiente. - Certo, dessa eu não escapo, né? - ele concordou. - Tudo bem, Senhor Cotonete - palmas para a metáfora mais estúpida da década. - Já fui pro banho - disse me levantando.
- Vai lá - ele disse batendo em minha bunda depois que cruzei por ele. Virei o rosto e ele continuava em meu encalço.
- Zavadjenho - eu disse com a voz fanhosa e ele riu alto. Acompanhei sua risada estilo quase-morri.
Por fim, com algumas peças de roupa estiradas no braço, bati a porta do banheiro, apenas saindo de lá quinze minutos depois, vestida e perfumada. Chacoalhei a toalha no cabelo para secá-lo melhor. Larguei-a em qualquer canto do quarto, depois eu daria um jeito. Penteei calmamente, mecha por mecha... Mentira! Foi no arranque mesmo. Ora, se vou ter paciência! Para finalizar, uma maquiagem leve e básica. O de sempre. Procurei por minha bolsa e no meu celular, quatro chamadas registradas. A primeira de Brian, a segunda também, a terceira não era diferente. Entretanto, a quarta deixou-me incomodada e com certa preocupação. O que queria me ligando? E mais! Será que Nickolas mexeu em meu celular? Espero que não.
Acariciei a tela, pensando se retornava ou não. Decidi deixar como está assim que ouvi a voz de Nickolas chamar por meu nome. Ainda não passara das dez e meu estômago continuava reclamando por carboidratos. Calcei a conhecida pantufa de joaninha e desci saltitando as escadas. Parecia uma criança feliz com um sorriso estampado no rosto. Alarguei-o ao ver que meu melhor amigo estava conosco. Brian tinha um sorriso brincalhão e me cumprimentava verdadeiramente feliz. E depois dizem que homens não fofocam. Senti minhas bochechas queimarem e me condenei por ter insistido em passar um pouco de blush por achar que estava com o semblante pálido.

Aproximei-me e abracei Brian apertado. Ele beijou minha testa num ato acolhedor. Em Nickolas, me prontifiquei a beijar-lhe o rosto, mas ele, com sua agilidade, virou a face fazendo com que nossos lábios se tocasse num doce e delicado selinho. Sorri envergonhada e eles riram baixo. Puxei a cadeira da ponta da mesa e sentei - ainda sentindo olhares sobre mim. Tirei a franja que teimava em cair e nesse movimento vi Nickolas fazendo aquilo que eu mais amava no mundo - além de vê-lo rebolar pra mim. - Torradas *-*. Sério, eu idolatro as torradas dele. Fechei a boca ao ver que eu quase babava. Mas não era necessariamente pelas torradas.
- Credo - Brian sussurrou pra mim. Eu o fitei confusa e ele revirou os olhos. - Sua tarada insaciável.
Fiz uma cara inocente e desenhei uma auréola em cima de minha cabeça, apesar de saber que o que Brian dizia tinha um fundo de verdade. Mas eu JURO que não sou nenhuma ninfomaníaca. É sério. Só saía um pouco fora do controle quando estava trancada em um quarto com Nickolas. Ah, não me culpem. É a convivência. Sempre convivi mais com garotos do que com garotas, e as suas conversas não são das mais limpas e corretas. Lembre tudo o que passei e irá entender. Minha vida se tornara uma bagunça antes de Nickolas cruzar por ela. E eu o agradeceria eternamente por eu me sentir a mulher mais especial do planeta. Enfim, eu o amo.
Arrepiei-me quando ele se aproximou por trás de mim e repousou sua cabeça em meu ombro, em seguida largando um prato em minha frente. Fechei os olhos ao sentir sua respiração atingir meu pescoço. Brian fez um barulho estranho com a boca. De constrangimento, creio eu. Afinal, recém nos reconciliamos e Brian desacostumara a ver esse tipo de melação. Pedi para que Nickolas cessasse e por um breve momento achei que ele me obedeceria. Engano meu. Já que ele voltou com uma xícara. Dentro dela, havia o líquido que antes eu era viciada e agora eu não conseguia respirar. Café. Ah não, de novo não.
- Tira isso daqui - pedi fazendo uma cara de nojo. Ele demonstrou surpresa, mas logo eu vi o objeto desaparecer de minha vista. - Obrigada - agradeci respirando fundo tentando controlar a repentina ânsia.
- Você está bem? - ele perguntou agachado ao meu lado e acariciando meu rosto com as costas da mão enquanto Brian despejava o líquido que recusei na pia.
Sorri confirmando. Adorava aquele jeito protetor de Nickolas. Era raro e precioso de se presenciar, mas ele sabia ser a melhor pessoa, mesmo que subitamente. Nickolas sentou-se ao meu lado e me acompanhou na torrada. Brian logo se juntou a nós. Coitado, mais parecia segurar candelabro - que é maior que vela - do qualquer outra coisa. Não precisei pensar muito em uma ação para não deixar o silêncio tomar conta. Quando eu menos esperava Brian e Nickolas engataram num assunto. O mais chato, devo frisar. Trabalho. Qual é? Hoje é S-Á-B-A-D-O! Deixassem para discutir negócios na segunda-feira.
Oh, falando em segunda-feira... Terei que dar de cara com esperando por uma resposta. A única coisa que passava em minha mente é fugir. Contudo, não posso fugir, mas também não quero magoá-lo. Desilusão é o pior sentimento que podemos causar em alguém. Com meu ouvido de tuberculoso, ouço ao longe, o toque de meu celular. Desviei a atenção aos dois homens que tagarelavam ali e vi que eles não davam a mínima para minha presença. Não que eu me incomodasse. Por um lado era bom: eu poderia sair dali sem ser notada. Então, com cuidado, arrastei a cadeira, levantei e larguei o prato na pia. Saí de fininho da cozinha.
Subi as escadas correndo. Sabia que os murmúrios dos rapazes bloqueariam suas audições. Obviamente, meu celular continuava tocando. Escancarei a porta do quarto e procurei por minha bolsa, encontrando-a em seguida. Puxei o zíper com pressa, revelando a bagunça que eu deveria ter arrumado a uma semana atrás. Revirei a bolsa e não o encontrei. Bufei de raiva ao vê-lo em cima da cômoda. E quando o peguei em mãos, a pessoa desistiu. Como se eu não soubesse quem ligava insistentemente. Algo gritava para mim dizendo que era . Dentre quatro chamadas, havia também as mensagens - que eram duas. Li uma por uma.

“Preciso falar com você. É urgente. Me liga! Beijos,

“Porque você não atende? Eu fiquei a tarde inteira lhe esperando naquela praça, mas você não voltou. O que aconteceu? Estou preocupado. Precisamos nos encontrar. Me liga! Beijos,

- Como você some assim e nem avisa? - perguntou Nickolas escorado no batente da porta.
Lógico, me assustei. Não esperava que ele viesse atrás de mim. Desajeitada, quase derrubei o aparelho no chão. Joguei-o de qualquer forma na bolsa e a fechei. Ele mantinha um olhar desconfiado. Parabéns . Se ele ler você está totalmente ferrada. Fui até Nick e o abracei pela cintura, recostando minha cabeça em seu peito. Era gostoso ficar assim com ele. Oh, e como era. Ele fazia cafuné em mim e eu estava quase dormindo naquela posição. Acordei-me ao ouvir sua voz de veludo perguntar a última coisa que eu queria responder. Se bem que, já passara da hora de esclarecer os fatos e agir a meu favor.
- Quem era no celular? - Ah, e eu achei que tivesse ouvido de tuberculoso e o chamei de surdo.
Resolvi não mentir. Talvez fosse melhor assim. Ou pior. Não sei.
- Um amigo - revelei. Certo que não contei a história toda e sim uma parte dela. Porém, continuava sendo verdade, não?
- Amigo? - ele indagou seguido de um ‘hum’. Eu apenas concordei silenciosamente. A palavra vale prata e o silêncio vale ouro. - Tá bom... - ele disse como se não se importasse e eu fiquei um pouco aliviada. - Posso saber quem?
Gelei. Meu coração parou. Se eu dissesse que não, ele iria ficar revoltado comigo, por não ter confiança nele. E, talvez, se eu dissesse que era , ele poderá se exaltar, brigar comigo e mais uma vez nos separaríamos por uma enorme bobagem: ciúmes. Ou, para meu espanto e alívio, ele me entenderá e não dará chiliques precipitados. Pensando e analisando as consequencias de ambas as opções, cheguei à breve conclusão de que a segunda era melhor. Portanto, mais arriscada. Nickolas me encarava, ainda esperando por uma resposta concreta. Soltei-me de seu abraço e fiquei a uma distância que me favorecesse e eu pudesse ver seus olhos - ele é mais alto que eu.
- Pode e deve - comecei. Ele ergueu as sobrancelhas em sinal para que eu continuasse a falar. - Era o ... - sussurrei o nome de meu amigo. Nickolas arregalou o olhar.
- Irônico, não? - ele riu. - Ele SEMPRE dá um jeito de estragar e se intrometer nas nossas reconciliações - encostou a cabeça no batente da porta. - Patético - e fez um movimento de para frente e para trás. - Patético! Mil vezes patético.
Fiquei feliz e ao mesmo tempo incomodada por ele não ter gritado pro mundo inteiro dizendo que eu era isso e aquilo. Num ato voluntário, aproximei-me até acabar com a distância de nossas bocas. Beijei-o e ele retornou, segurando minha cintura. Gritei de alegria por dentro.
- É você quem eu quero - falei baixinho. - Entenda que eu nunca trocaria o homem mais incrível que eu amo por aquele que apenas nasceu para ser meu melhor amigo - fechei os olhos e me inclinei para falar as palavras mágicas no pé de seu ouvido: - Eu te amo.
- Eu amo mais - ele gritou.
Abraçou-me. Um abraço apertado. E eu sabia que algo bom viria daquilo. Apenas não tinha certeza do que. Será que ele me pediria em namoro novamente? Ah, seria um sonho. Voltar a morar com quem até meu último fio de cabelo era apaixonado. É, foi uma comparação tosca, mas foi a melhor maneira que encontrei para expressar a extensão de meu amor por Nickolas. Com toda a certeza do mundo, é um sentimento infinito.
- - ele falou meu nome em meu ouvido. Confesso que fiquei alucinada o bastante para meus sentidos quase não corresponderem.
- Sim? - proferi ainda tonta.
- Casa comigo? - ele perguntou. - Hoje, amanhã, quando for. Eu quero que você seja minha eternamente - olhou em meus olhos que já lacrimejavam. Eu sorria como nunca havia sorrido antes. - Quero mostrar para todos que dentre mais de 6 bilhões de pessoas, eu consegui achar a perfeita, a ideal - mordi meu lábio inferior e deixei algumas lágrimas escorrerem. Ele as limpou com as costas da mão. - A melhor - terminou de dizer. E eu estava debilitada demais para conseguir responder. Talvez estivesse até pálida. Eu sabia que não conseguiria respondê-lo com firmeza.
Então sorri mais uma vez vendo seus olhos brilharem - eles sempre me lembravam o mar. Movi meus lábios dizendo um ‘sim’ silencioso e, por fim, o beijei intensamente. Desejei que aquele beijo não acabasse, mas uma hora precisaríamos respirar. Com sorte, meu raciocínio colaborou e voltou a funcionar. Não precisei trabalhar muito em escolher as palavras certas para expressar minha euforia. Uma simples frase diria tudo por mim. Segurei as mãos de Nickolas, que estavam quentes - então não era só eu - e disse:
- Quando estou com você, me sinto completa. Como se eu não precisasse de nada mais - ele acariciou minha bochecha com o dedão.
- Eu também me sinto assim, amor - ele riu. E eu não entendi. - Agora vamos descer. Abandonei o Brian lá na cozinha - explicado.
- Péssimo amigo - dei um tapa em seu ombro e num pulo eu já estava chegando aonde Brian parecia entediado. - Bee *-* - exclamei como criança e imaginei que ele teria revirado os olhos. Odiava quando o chamavam assim, mas aturava quando se tratava de mim - Seu amigo-da-onça te largou aqui sozinho? - ele fez que sim com a cabeça e depois a manteu abaixada. Drama. Drama. Drama. - Aw, coitadinho dele, Nickolas! Olha só o que você fez? - falei para o ser que vinha até nós. Ele deu de ombros mostrando que não ligava.
- Para de frescura, seu bicha - Nickolas falou para Brian.
- Desculpa , mas é necessário - ele disse antes de mandar o dedo do meio para o amigo.
Eu ri alto.
- Vocês parecem duas crianças - disse pausadamente entre risos. - Mas no fundo, eu sei que se amam.
- Pronto - disse Nickolas caminhando rebolando e com a mão desmunhecada. Mereço? - Descobriram nosso caso, baby. Não precisamos esconder mais - disse sentando no colo de Brian.
- Ai, amor. Aqui não - Brian disse empurrando-o para que saísse de seu colo. - Sai, senão não respondo por mim, gostoso - disse apertando a bunda dele. Opa, isso apenas eu faço. Droga! Me entreguei.
Nickolas - ainda na sua fantasia de purpurina - colocou o dedo na boca e fez uma posição sexy. Eu ainda não parara de rir e minha barriga insistia em doer.
- Tá, chega de putaria - Nickolas disse voltando a ser meu macho de quase sempre. Brincadeira.
- Verdade - Brian disse levantando-se. Deu um beijo em minha testa e um abraço másculo - hum, sei - em Nickolas. - Vou pra casa retomar minha masculinidade - ele disse naturalmente e eu me senti envergonhada por ter amigos tarados. - Você deveria fazer o mesmo - ele disse apontando para Nickolas e foi até a porta de entrada, batendo-a em seguida.
Ouvimos seu carro arrancar e Nickolas me encarou com malícia no olhar. Aham, aham. Hora da festa. Ignorem-me.
- Sabe que não é má ideia? - ele disse se referindo ao que você-sabe-quem Voldemort falara.
Dei um sorriso MEGA demoníaco e o resto eu não preciso contar.

Na segunda-feira...

Terminei meu trabalho e sabia que era a hora de fazer uma pessoa menos feliz no mundo. Despedi-me de Joe e Nick e segui meu caminho com até uma cafeteria ali perto. Ainda era de manhã. Estranho, porque há dois dias, eu não conseguia sentir o cheiro do café que meu estômago revirava e agora o mesmo implorava por um cappuccino. O silêncio era constrangedor e eu me perguntava se o que essa vontade louca por cafeína era desejo. Não, impossível. Pelo menos eu acho. Virei o rosto para me certificar de que continuava caminhando ao meu lado, ou se apenas aquilo era a presença de um fantasma. Respirei aliviada, ele ainda estava ali.
- Tudo bem? - perguntei visivelmente preocupada.
- Uhum - ele respondeu com um sorriso fraco, apagado.
- Veja, chegamos! - Exclamei ao enxergar a Starbucks a menos de dois metros de distância de nós.
Não demorou e chegamos lá. Sentamos e ordenamos nossos pedidos. Ordenamos... Até parece que temos o poder de mandar em alguém. Certo que eu mando no Nickolas, mas isso é um caso a parte. Então, a garçonete de voz fanha e cabelo ruim demorou dez minutos para nos trazer as bebidas. Aí, começou a tocar uma música do Michael Jackson no recinto. Beat it. (n.a: precisava comentar isso! É a terceira vez que to assistindo o top 40 dele na MTV. Mano, não para de passar ._. Ah Vick, eu me lembrei do Mion zoando esse clipe. OMG MJ, RIP <3)
Traguei um gole do whisky café e continuava mexendo a colher na taça. Mais um pouco e eu ficaria tonta. Então, o chamei. Ele me olhou e endireitou-se na cadeira. Respirou fundo e soltou:
- Nem sei por onde começar - passou a mão no cabelo, nervoso.
- Acredite, nem eu.
Ele suspirou.
- Acho que é melhor irmos direto ao ponto - ele falou. - Porque você sumiu e depois sequer atendeu minhas ligações ou respondeu meus torpedos?
- Eu... - disse assustada por ele ter sido tão direto - Estava na... - comecei a gaguejar e a olhar para os lados nervosa - casa de-dele - disse engolindo seco.
- Acho que captei - ele riu, mas ainda assim decepcionado. - Saiba que estou verdadeiramente feliz por vocês terem se acertado e desejo apenas o melhor.
- Sério? - perguntei de supetão. palavra feia - Quero dizer, eu pensei que você fosse ficar de mal comigo e fosse dispensar minha amizade. Perdoe-me, mas o coração não escolhe a quem amar e eu tenho certeza de que você achará alguém que te fará ter as sensações mais maravilhosas do universo inteiro.
- Eu espero - ele sorriu. - Amigos, então?
- Os melhores - me arrastei no ‘sofá’ do Starbucks para abraçá-lo amigavelmente.
Enfim, continuamos conversando como se tudo estivesse normal. Terminamos nossas bebidas, pagamos e fomos embora. Caminhávamos - agora, conversando - pelas ruas de Los Angeles e de repente ele parou fazendo com que eu seguisse alguns passos sozinha.
- O que foi? - perguntei, voltando até ele.
- Será que - ele escolhia as palavras - eu posso conhecê-lo?
- Quem? Nickolas? - perguntei admirada por sua vontade de conhecer seu ‘concorrente’.
- É, mas se você não quiser, não tem problema. Eu vou entender - ele apressou-se em dizer.
- Não, tudo bem! Eu acho uma ótima ideia! - disse sorrindo.
- Quer saber? Eu já fui fã de Backstreet Boys - ele disse rindo de si mesmo.
- Ah, legal - comentei. - Bom, vou avisar ele. Aquele preguiçoso deve estar dormindo. Está de férias e se esquece da vida.
riu.

“Hora de acordar, meu amor. Tem alguém que quer te conhecer. Por favor, seja receptivo. Por mim. Eu te amo. Xx”

- Pronto - disse guardando o celular. - Podemos ir.
- Deixei meu carro em frente ao prédio. É longe? - ele perguntou em dúvida.
- Um pouco, digamos. Se formos caminhando rápido demoraremos mais de meia-hora.
- Ah - ele fez uma careta. - Vamos de carro, então.
- Ok.
Não demorou para estarmos dentro do carro. Como diria o AC/DC: I’m on a highway to hell. (n.a: estou a caminho do inferno). Infelizmente, eu sabia que Nickolas poderia ser tanto o melhor anfitrião quanto a pessoa mais arrogante do mundo. E isso me dava medo. Muito medo. Quinze minutos depois, eu apontava a enorme mansão de Nickolas e estacionava. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Bati várias vezes e ri ao ouvir os gritos impacientes de Nickolas avisando que já estava indo. Passos em direção porta e a maçaneta girando. Era agora.

- Oi, meu amor - Nickolas disse com um sorriso enorme e receptivo ao abrir a porta, estampado de uma forma que parecia que não desgrudaria de sua face tão cedo.
Ele me puxou para um beijo e eu, desconcertada, correspondi. Ao terminarmos, manteve-me num abraço lateral, apertando minha cintura. Nickolas estava na defensiva e eu jurava que ouvia seu lado protetor gritar por autoridade.
- - disse me desvencilhando de braços de Nickolas, por causa de meu amigo que aparentava estar constrangido. - Quero que conheça o meu...
- Noivo - Nickolas adiantou-se e eu congelei por dentro temendo a reação de . - Prazer em conhecê-lo - ele esticou a mão direita. apertou-a firmemente e sorriu simpático.
Obrigada Nickolas. Obrigada . Amo vocês. E somente eu sabia a tensão que me atormentava.
- Prazer é meu - falou calmamente. - Falaram tanto de você que fiquei curioso em conhecê-lo - ele disse e desviou brevemente o olhar para mim e Nickolas não demonstrou surpresa, e sim, admiração.
- Igualmente - Nickolas disse gentil.
Para tudo! Nickolas sendo gentil com ? É o caos! Aê! Ponto para mim. E foi assim, que ele convidou para entrar e almoçar conosco. Para meu alívio, ele aceitou de imediato. Nickolas deu passagem para , logo fechando a porta atrás de si. Nos dirigimos à sala num absoluto silêncio. Fiz sinal para que sentasse num dos sofás. Eu e Nickolas nos acomodamos no outro. Escorei a cabeça em seu ombro enquanto esperava por um dos dois seres se manifestarem. O que não demorou muito. No início, Nickolas perguntava e apenas respondia. De repente, eles estavam comentando sobre o jogo de futebol da noite anterior.
Cruzei os braços, quinze minutos depois, enquanto eles ainda não tinham calado a boca. Será que eu era transparente? Eu poderia muito bem sacudir os braços no ar e gritar para chamar-lhes a atenção: HEY, ESTOU VIVA! Preferi ficar quieta e não estragar aquela situação vantajosa. Pelo para mim, ela era. Bocejei involuntariamente, por inúmeros motivos. Dentre eles, eu posso citar o famoso tédio. Qual é? Eles deveriam ao menos me mandar buscar uma cerveja ou algo parecido. Afinal, são homens. Não teria me irritado. Seria o oposto. Eles teriam se lembrado de mim.
- Quer beber alguma coisa? - Nickolas perguntou para . Este pensou um pouco antes de responder, porém concordou.
- Aceito - ele respondeu um pouco envergonhado. Passou a mão no cabelo em sinal de nervosismo. Nem aparentava estar empolgadíssimo em uma conversa inútil com Nickolas há dois minutos.
- Bebê - ele me olhou piedoso e com certo brilho intencional no olhar. - Se importa em trazer para nós? - acariciava minha bochecha com o polegar. Sorri com seu gesto. Como ele conseguia ser tão carinhoso a ponto de amolecer minha alma? E como eu cheguei a pensar em recusar?
- Claro - sorri e dei-lhe um selinho antes de me levantar do sofá. Bastou eu me afastar para eles voltarem a conversar. Assuntos impróprios para menores e nojentos para mim, mulher.
Chegando na cozinha, a primeira coisa que fiz foi abrir a geladeira. Anotei mentalmente que precisava comprar mais bebidas - refrigerante, cerveja, smirnoff, suco e água mineral. Não havia nada que prestasse dentro dela. Bufei de raiva de mim mesma e quase bati a porta de metal. Cogitei em fazer um chá, mas lembrei que aqueles dois alegariam serem machos o suficiente e que chá é bebida de fresco. Esquece o chá.
Água? Nem pensar.
Abri a despensa e dei de cara com meu atual inimigo. O café. Ah, droga. Por que ele sempre me perseguia. É o carma. Enfim, para agradá-los e não fazer desfeita, quis me arriscar. Talvez eu pudesse aguentar o enjoo. Exatamente isso que eu faria. Eu sou uma mulher ou uma barata? Credo, que cheiro de inseticida... Não, é a cafeína atacando novamente.
Arrumei a cafeteira e fui largando café no filtro. O problema é que voltava o pó diretamente em meu rosto, o que me fazia inalá-lo. A primeira vez aguentei. Na segunda, precisei trancar a respiração. E na terceira? Eu já tinha corrido pro andar superior - deixando dois rapazes assustados, sem entender nada, na sala.
Quase levei a porta do banheiro abaixo devido à pressa. Ergui a tampa da privada e sem hesitar muito, despejei meu café-da-manhã ali. Doente de novo? Perfeito. Será que era possível um ser humano não conseguir manter sua imunidade sã por um tempo? Fantasia minha. Já que se tratava de alguém que não se alimentava direito e seu dia se resumia em trabalho e diversão. Sim, nos dois sentidos.
Senti a garganta arder e alguém segurar meus cabelos. Não me incomodei em olhar para quem estava ali. Não precisava me certificar de que era Nickolas. Disso eu tinha certeza. Forcei mais um pouco, como não saiu mais nada, fechei a tampa do vaso e dei descarga. Tentei levantar, mas fraquejei. Nickolas segurou-me nos braços.
- Shh - ele disse. - Tá tudo bem - abriu a torneira a arrastou-me consigo. - Lave a boca e depois você vai descansar.
Queria protestar e dizer que estava ótima, mas minha voz teimava em sair. Fiz o que Nickolas mandou e pedi para que ele me ajudasse a por uma roupa mais confortável. Ainda debilitada, deitei-me na nossa cama, com os olhos pesando. Fechei-os, me aconchegando debaixo das cobertas e um beijo foi depositado em minha testa.
- Descansa, meu amor. Amanhã você vai ao médico, querendo ou não - Nickolas falou antes de sair do quarto me deixando cair em um sono profundo.

Nickolas narra:

Suspirei ao bater a porta, descendo as escadas e indo diretamente ao telefone. me encarava curioso, mas antes de respondê-lo, disquei alguns números no aparelho telefônico. Fiquei no vácuo por breves segundos e logo atenderam minha chamada. Falando com uma secretária com voz de garça Dougie, marquei uma consulta para às 4PM. Agradeci e desliguei. Sentei-me paralelo ao amigo dela e ele ainda mantinha a feição aflita.
- Não se preocupe, vou levá-la ao médico - disse, adivinhando suas atormentações.
- Bom, eu já vou indo... - ele disse, levantando-se.
- Não, que isso! - o interrompi. - Eu o convidei para almoçar, não faça essa desfeita. Daqui a pouco, ela vai acordar e tenho certeza que adoraria que você ficasse.
- Certo - ele disse, acomodando-se novamente no sofá. - Você me convenceu - ele riu.
Continuamos conversando por longas horas. era um cara legal e eu serei obrigado a ficar com um peso na consciência por tê-lo julgado antes de conhecê-lo melhor. Devo desculpas não só à , mas a ele também. Agora percebo o quão idiota fui ao ter fantasiado uma suposta traição. Ainda bem que foi temporária.
Liguei a televisão para deixar um clima menos tenso e mais barulhento. Odeio silêncio. De repente, meu olhar cruzou com o anel de prata que reluzia em minha mão esquerda. Sorri fascinado. Os caras - Brian, AJ, Howie e, acreditem, até - costumavam fazer piadas a meu respeito. E eu, sinceramente, não gostava.
Eles diziam coisas do tipo: “Você não casa cedo” ou “Você até casa, mas acho que Baylee casa antes”. Baylee é filho de Brian. Uma criança encantadora de apenas seis anos de idade. SEIS anos. Aí, você vê a gravidade da minha situação. Poderiam amenizar a coisa, dizendo: “Você nunca vai casar”. Mas não. Necessitavam ferir meu ego.
Entretanto, aqui estou eu. Com uma aliança entre os dedos, prestes a chegar ao matrimônio. Nunca pensei que um dia daria um passo tão importante quanto esse. Muito menos que encontraria a pessoa - não diria perfeita, afinal, ninguém é perfeito - essencial. Ótimo, eu aqui em devaneios e deixei o coitado do solitário. Me mate agora.
Mentira.
Olhei para o relógio e vi que faltava pouco para o meio-dia. Claro, meu estômago já começara a fazer barulhos sinistros e estridentes. Hora de ir para cozinha e agir.
- Vai querer ficar aí ou me acompanha no preparo do almoço? - perguntei a . Ele, que olhava fixamente para a tela da TV, demorou a responder.
- Se não se importa... - ele disse encabulado.
- Capaz - eu disse desligando o aparelho e jogando o controle no sofá, sem dar muita importância. - O que sabe cozinhar? - perguntei ligando a luz para iluminar o ambiente. vinha logo atrás de mim.
- Serei bem sincero - ele riu nervoso. - Praticamente nada. Ainda moro com meus pais e quem faz as refeições é minha mãe.
Surpreendentemente, senti uma pontinha de inveja de . Sua família estruturada jogava a minha no lixo. Pais problemáticos, irmãos inconseqüentes. Era como eu usualmente os definia. E, talvez, eu tenha tomado juízo com o tempo porque não era muito diferente deles. Desejei que meus entes fossem como os de . Tudo o que passei veio à tona, mas o tempo se encarregara de adormecê-las em meu subconsciente. Adormecê-las, não apagá-las. Vidas mudam. Memórias não.
- Sem problemas - eu disse rindo para descontrair. - Eu me viro aqui. Fique a vontade se quiser alguma coisa.
- Valeu - ele respondeu.
Então, me concentrei em preparar algo comestível para nós três. Se bem que eu acho que não acordará a tempo do almoço. Tanto faz. É até melhor que ela descanse. Uma hora depois, eu estava arrumando a mesa, colocando os pratos. Fui ao quarto e verifiquei se ela ainda dormia. Confirmei minhas suspeitas e tive que me contentar em almoçar com . Não que eu estivesse reclamando. Dessa forma, poderíamos falar de assuntos de homens e ela não ficaria no escanteio.

Depois de comermos bastante, larguei a louça na pia, prometendo a mim mesmo que não deixaria acumular como da última vez. Olhei no relógio e era quinze para a uma. estava retirando a toalha da mesa e depois a dobrou. Joguei-a em algum canto da lavanderia. Quando ele ia proferir suas palavras, a campainha tocou. Num pulo eu estava lá.
Para a minha não-surpresa, adivinhe quem era. Sim, ele mesmo. A famosa réplica de Pato Donald. Brian Littrell. O que o traste queria logo agora? Abri a porta, sendo recebido por uma palhaçada. Típico ‘hihihi’ dele. (n.a: quem não conhece? *-*)
Rolei os olhos e o mandei entrar. Apresentei-o a e eles deram um aperto de mão. Brian disse que o gerente da gravadora queria ter uma conversa séria com o grupo. Falar de negócios, propostas e quem sabe assinar contrato para um novo álbum. Na hora, fiquei realmente empolgado, mas lembrei-me de . Quem se encarregaria de levá-la à consulta? Olhei para trás e vi distraído analisando algumas pinturas penduradas na parede.
- Aguenta aí - falei para Brian.
- Beleza - ele disse atirando-se num dos sofás. Folgado.

Cutuquei e ele virou-se.
- Então - comecei. - Eu vou precisar ir trabalhar. Não queria, mas é necessário - cocei a nuca nervoso. - Poderia me fazer um enorme favor?
- Sim. O que seria? - ele indagou.
- Levar a às quatro horas no médico, se eu não tiver voltado. E fazer companhia para ela, claro.
- Tudo bem - ele concordou. - De qualquer forma não tenho compromissos hoje.
- Obrigado - abracei-o masculinamente. É óbvio. - Não se esqueça de fazê-la comer quando acordar - gritei antes de sair de casa e dar um pedala na cabeça de Brian quando ele disse para eu tomar cuidado.
Por que ele insistia em meter minhocas em minha cabeça? Haha, que engraçadinho.

Você narra:

Acordei na penumbra - nem tanto, pois o sol continuava a brilhar do lado de fora. O quarto não estava totalmente iluminado, mas como costume ao despertar, cocei o olho esquerdo. Resmunguei, reclamando de dor na garganta que insistia em arder. Escutei uma risada baixa e distante.
Estranhei por ser distinta da de Nickolas. Mesmo assim, ela era familiar para mim. Abri os olhos devagar até me certificar de que não era um fantasma que me aguardava sentado na beirada da cama. Ele realmente se prestara a ficar e fazer companhia a alguém doente, sozinho?
tinha um sorriso acolhedor e eu não conseguia evitar uma pontinha de alegria ao concluir que ele tinha ficado. Claro, não ousaria protestar se no lugar do moreno alto bonito e sensual, eu estivesse focando o loiro de olhos azuis. Obviamente, nem daria tempo para tal ato, já que com certeza Nickolas entupiria meus tímpanos com palavras de preocupação e afeto.
- Obrigada - agradeci com a voz rouca de uma recém-acordada.
- De nada - ele respondeu ainda sorrindo, mas não ousou aproximar-se. aparentava estar mais frio e distante. - Você está com fome? Se quiser posso tentar fazer algo... - ele disse levantando-se.
- Não precisa - disse sentando. Ele fez uma cara de dúvida. - Estou bem, sério - insisti. - Cadê ele? - perguntei curiosa.
- Nickolas? - assenti. - Ele falou que ia resolver uns negócios - disse lembrando. - Um cara esteve aqui, não me lembro o nome direito - fez uma careta, confuso.
E de repente, de meu cérebro, veio um estalo. Sabe, na velocidade 5 do créu da luz.
- Digamos que essa pessoa seja de estatura baixa? - concordou. - E metida à engraçada? - apenas riu e não disse nada. - Por acaso, você está se referindo a Brian?
- Acho que é isso - ele sorriu e deu de ombros. Olhou rapidamente para o relógio que contornava seu pulso e depois para mim novamente. - Acho melhor nos apressarmos.
- Não vou - disse me tapando bruscamente. Não iria ao médico. Ninguém me levaria. Nem por cima de meu cadáver. Odiava ficar doente, quanto mais me dopar de remédios.
- Ah, vai sim - ele aproximou-se rapidamente e me destapou de modo a fixar seus olhos nos meus. - Eu prometi que a levaria e não farei esta desfeita com ele. Seu namorado confiou em mim. Levanta agora e vá tomar banho antes de irmos.
Ele falou com tanta convicção na voz, que chegou a me deixar um pouco temerosa. Então, num pulo eu já estava debaixo do chuveiro apreciando a água fervente que deslizava em meu corpo e ia embora pelo ralo. (n.a: oi, viajei e estou bêbada ._.)
Meia hora depois, gritava para me apressar. Estávamos atrasados, mas quem disse que eu me importava? Se chegássemos e estivesse fechado, eu não me incomodaria. Mas como não cessava seus berros, decidi me arrumar rapidamente. Por fim, peguei a bolsa e minha expressão tornou-se de nojo ao aproximar o vidro de perfume de meu pescoço. Eca, essa coisa doce. Respirei fundo, evitando as náuseas e a tontura.
Quando ambas passaram, desci e encontrei distraído com a televisão. Então, pensei que poderia subir e voltar para meus lindos sonhos, sem que ele percebesse. Quando virei-me, ele se manifestou:
- Dê meia volta, pois você vai comigo - vidente, é? - Por bem, ou por mal - ele veio até mim e ofereceu seu braço. Revirei os olhos e me enganchei nele.
Tranquei a porta e caminhamos até seu carro, discutindo sobre as vantagens e as desvantagens de eu ir ou não ir à porcaria do médico. Ele abriu a porta do carona, fechando-a logo depois que eu entrei. Deu a volta e em um segundo estava ao meu lado. O caminho inteiro ele zoava de minha cara emburrada. Incrível! Bastou algumas horas com Nickolas para tornar-se uma réplica made in China dele.
Cinco. Oito. Dez minutos. estacionou em frente ao consultório extremamente branco, limpo e neutro. Bufei antes de cruzarmos pela imensa porta de vidro. Uma secretária de voz estranha nos atendeu e disse que demoraria pelo menos uns trinta minutos até minha vez. Então, sentamos. Peguei uma revista sobre moda. Quase nada de interessante. Então, peguei outra de fofoca. Li toda e ainda não chegara minha vez. estava entretido em uma revista de ficção científica. Homens, todos iguais. Então, porque escolhemos tanto? Ok, chega de frescura.

“Descobri que estava grávida depois que minhas coisas preferidas tornaram-se detestáveis.”

Era o que dizia a folha de rosto da revista que estava bem debaixo de meu nariz. Senti meu coração acelerar. Mas não. Não era possível. Tomei-a em mãos a fim de lê-la. Antes que pudesse, ouvi meu nome e me cutucou. Sorri para ele, devolvendo a revista para a pilha. Olhei para a porta entreaberta e moça que quase simpática parada ao lado, esperando por mim. beijou minha testa e insistiu em ir comigo. Aceitei. Um senhor de meia-idade nos esperava. Sentamos nas cadeiras de couro. E o doutor começou a falar.

- Não, eu não sou o pai - explicava desesperadamente pela terceira vez ao médico. Ou ele é surdo ou é lerdo demais para absorver essa simples informação.
E eu tentava fazer o mesmo, mas ainda não acreditava no que estava acontecendo. Estava em estado de choque, não conseguia reagir, nem demonstrar nenhum tipo de sentimento - o que não significava que eu estivesse triste. Foi um baque. Quero dizer, eu não sou jovem demais para ser mãe? , ao meu lado, não aparentava estar tão surpreso quanto eu, mas ele continha um sorriso levemente desenhado nos lábios. E de repente não se ouvia mais nada.
Prendi-me num mundo do subconsciente lotado de perguntas e dúvidas. Eu conseguirei ser uma mãe presente? Serei um bom exemplo e terei capacidade de oferecer um amor incondicional ao meu filho? Farei tudo que estiver ao meu alcance para ser a melhor mãe do mundo.
Mas eu ainda tinha um temor. E sobre Nickolas? Já ouvi pessoas dizerem que ele preferia não ter filhos. (n.a: fato ._.) Apesar disso, estou certa que ele não terá capacidade nem coragem de rejeitar esta criança. A mídia deforma o caráter de uma pessoa e só passamos a enxergar com outros olhos no momento em que convivemos com ela. E é por isso que eu amo Nickolas.
continuava estalando os dedos para que eu ‘acordasse’. Deve estar repetindo esse movimento a um tempão, pelo que me conheço. Somente um alguém era capaz de me tirar desse tipo de transe. E eu nem preciso citar nomes. Enfim, me dei por vencida e respirei fundo, voltando ao momento real. Olhei dentro dos olhos do rapaz que sorria e magicamente sorri também.
A alegria latejava em meu peito e dentre todas as maneiras de se manifestar, ela escolheu a mais silenciosa. Toquei em minha bochecha e a senti molhada. Apertei os olhos, deixando algumas lágrimas escorrerem. as limpou e riu levemente. Felicitou-me e disse palavras de conforto.

No caminho de volta, a única coisa em que eu pensava era no que dizer a Nickolas. Não conseguiria ser direta. Já tinha uma noção do que ele diria, mas mesmo assim algo me incomodava. Antes que pudesse notar, não tinha mais unhas. Havia roído todas apenas pelo fato de estar inutilmente nervosa. Suspirei pesadamente, tentando controlar as batidas do coração. A cada rodar de pneu, parecia que ele ia saltar boca afora.
Eu assistia o asfalto arrastar-se lentamente, apesar do ponteiro indicar velocidade um pouco acima de 80 km/h. Foquei um ponto no céu e decidi procurar desenhos nas nuvens. Queria me distrair e esquecer por um breve espaço de tempo que teria que dar a notícia revolucionária a Nickolas. Sabia que a partir de agora minha vida daria um giro de 360º.
Senti uma mão sobre a minha. Ela era quente e macia. , sem pensar muito, tentava me acalmar. Talvez ele fosse uma das poucas pessoas capaz de decifrar minhas inquietações. Ignorei o fato de que ele tinha se declarado para mim no dia anterior e apertei fortemente sua mão, depositando ali tudo o que me atormentava. Logo, eu me senti mais leve.
Eu queria agradecê-lo, mas palavras não bastariam. Pensei em inúmeras opções, mas uma delas tocou-me profundamente. Era o melhor que eu poderia oferecer que não fosse material. Porém, esperaria ele parar o carro para fazer o convite. Pelo pouco que sabia sobre , a ficha demoraria a cair. Cinco minutos depois estávamos em frente a minha casa.
tirou o cinto e estava se preparando para sair do carro, mas eu não deixei, puxando-o pela camisa.
- Espera - pedi com a voz apressada. Ele virou o rosto calmo e sereno para mim. - Eu... queria agradecer por tudo.
- Amigos são para isso - ele sorriu. - E eu sei que quando precisar de você é só chamar.
- Inverno, primavera, outono ou inverno. Não interessa quando, mas sempre estarei ao seu lado.
Nos abraçamos ligeiramente.
- Mas o que eu queria dizer... - engoli a saliva - ou melhor, fazer, é um convite.
- Convite? - ele perguntou curioso.
- É - eu disse feliz. - Você aceita ser o padrinho dele? - passei a mão na barriga. O fato era que eu não sei se será menino ou menina, mas enfim, eu vi abrir seu melhor sorriso e seus olhos brilharam.
- Claro! Nossa! Nem sei o que falar - esbanjava empolgação e alegria. Gesticulava loucamente, o que me fez rir.
- Essa é a minha forma de agradecer - eu disse calma. - A melhor que consegui encontrar.
- E simplesmente perfeita. Vou adorar ter uma criança em volta de mim.
- Nem me fala - rolei os olhos e nós rimos.

Sentada no sofá, eu balançava a perna freneticamente. Há duas horas me deixara em casa e desde então, eu esperava Nickolas. Mas que raio de trabalho era esse que ele trocava a mulher. Por que, se eu for analisar, Nickolas passa mais tempo com os caras do que comigo. Tá, em parte é mentira. Mas tanto faz.
Ouvi barulho de carro e fui correndo até a janela, bufando frustrada por não ser ele. Voltei ao assento, dessa vez me deitando. Encarei o relógio por intermináveis segundos. A maçaneta girou, mostrando um Nickolas tenso. Um sentimento diferente pairava no ar e eu estava estranhando. Ele veio até mim e sentou-se ao meu lado.
- Aconteceu alguma coisa, amor? - perguntei melosa.
Ele afirmou. Eu tinha medo do que estava por vir.

- Nós estamos no topo das paradas! - ele gritou e levantou-se extasiado. - Número um nas vendas do novo CD! - sorria feito criança, seus olhos brilhavam e eu sabia que aquele homem, que se autonomeava frio, a qualquer momento ficaria emocionado.
Sorri orgulhosa dele. Quero dizer, não apenas dele, mas de todos os integrantes da banda. Porém, quem estava parado esperando por um abraço meu era Nickolas. E isso é o mínimo que eu posso fazer. Dei um salto do sofá e com uma risada curta, abracei-o. Nickolas ofegou porque eu o apertava.
- Sabe quem foi minha inspiração, é e sempre será? Sabe quem continua me motivando a viver? E quem me torna melhor, todos os dias? - ele perguntou olhando dentro de meus olhos. Senti ternura vindo dele e esse foi a coisa mais linda que ele já transmitiu pra mim.
Neguei com a cabeça fazendo-me de ingênua e desentendida.
- A mulher que eu amo. Aquela que vai me aturar pro resto da vida. A mesma que mudou meus conceitos sobre família e casamento. A que me beija e num instante me faz sorrir, feito adolescente e sua primeira paixão - ele alisou meu rosto e foram poucas as palavras que saíram de minha boca. Eu não conseguiria proferir nada.
- Eu te amo - disse pausadamente para que ele entendesse cada letra e cada fonema. Não hesitei mais e o puxei pelo pescoço. Nossas bocas se encontraram num beijo calmo e eu sentia como se tivesse uma trilha sonora de fundo que nos completasse. O ritmo era perfeito. E tudo parecia ser assim com Nickolas. Perfeito.
Mas eu ainda não tinha acabado. Agora, mais do que nunca, queria contar a ele sobre a novidade. Então, encerrei o beijo com selinhos carinhosos. Ele, brincando, mordeu minha bochecha. Ri com o ato. E como eu o conhecia, sabia que Nickolas não me deixaria falar e aonde iríamos parar se ele continuasse me provocando. Contra minha vontade decidi afastá-lo. Ele fez uma cara do tipo ‘WTF?’, mas logo se recompôs.
- Tenho uma notícia pra você - disse entortando a cabeça para baixo e mordi o lábio inferior para conter que tudo saísse por impulso.
- Não pode ficar pra depois? - ele pediu agarrando minha cintura e colando nossos corpos. Por pouco eu quase concordei.
- Não. Prefiro falar agora senão depois não tenho coragem - espalmei as mãos em seu peito. Infelizmente, tinha uma coisa ali me incomodando: o perfume.
Droga. De novo não.
- Com licença - pedi e saí correndo com Nickolas em meu encalço. Quase voando de tão rápido cheguei ao banheiro e despejei tudo o que eu não tinha comido no vaso sanitário.
Nickolas segurava meu cabelo e pedia sereno para que eu me acalmasse. Terminei de regurgitar e apertei a descarga. Levantei do chão frio e a primeira coisa que fiz foi escovar os dentes. Nickolas ficava me rondando e perguntando o que eu tinha, mas como minha boca estava entupida de creme dental não respondia. Sequei as mãos e agora responderia todas as suas perguntas.
- Respira, meu amor - pedi e ri. Ele me obedeceu. - Eu não queria, mas fui ao tal médico. E caso contrário, não seria justo que você culpasse o . Você sabe como eu sou teimosa pra essas coisas!
- É, eu sei... - ele disse convencido. - E os remédios que ele receitou?
- Que remédios? - ele arregalou os olhos. - Amor, eu não estou doente - sorri angelical.
- Não? - Nickolas perguntou incrédulo. - Como não? Você acabou de...
Nossa, quanta lerdeza.
- Não é óbvio? - o cortei. Caramba, como demora pra cair a ficha dele. Anda carroça.
- Óbvio que... - ele fez um gesto com as mãos, o qual indicava que era para eu me explicar, ser mais explícita.
- Não pensei que seria difícil pra você entender, mas acho que vou ter que falar, não é? - ele concordou brevemente e franziu a testa. - Ok, vou ser direta - ele sussurrou um ‘ótimo’.
E agora? Havia milhares maneiras de dizer. E qual delas eu vou usar?

“Hey, Nickolas! Você vai ser papai!”
“Amor, estou grávida!”

Acho que forma que eu me expressar, não fará diferença. O fato é o mesmo e ele entenderá. Então, acho que a primeira é mais fofa. É, a primeira.
- Nickolas Carter - disse seu nome completo e peguei suas mãos e as coloquei sobre minha barriga. - Você vai ser papai - sorri envergonhada.
Eu vi seus lábios se abrirem e curvarem-se de modo a mostrar todos seus dentes. E eu vi, juro que vi, uma lágrima escorrer de seu olho esquerdo.
- AH MEU DEUS! - ele gritou. - EU SOU O CARA MAIS FELIZ DO MUNDO! - girou-me no ar e depois me abraçou.
E eu sou a mulher.

Oito anos depois...

- Amor, cheguei! - berrei ao fechar a porta da frente de casa.
- Oi! - ele disse da cozinha. Largou o que estava fazendo e veio ao meu encontro e me acolheu em seus braços.
Estávamos deitados no habitual sofá da sala. Ele, como sempre alisava meus cabelos. Eu queria conversar com ele, uma conversa já conhecida.
- Nick, senta - pedi, me endireitando. Ele fez o mesmo.
- Hum? - ele perguntou.
- Estou grávida, de novo - disse com naturalidade, mas ainda não havia acabado.
- O quê? - ele disse, mas não tão surpreso.
- E são dois. Gêmeos.
Seu rosto empalideceu e Nickolas começou a contar nos dedos.
- Um, dois, três, quatro. Mais dois, seis... SEIS! - gritou e por fim desmaiou.
Bufei e levantei indo na direção das quatro crianças que brincavam sem importunar ninguém no chão. Logo Nickolas juntou-se a nós.
- Pensei que ia demorar mais dessa vez - falei simplesmente.
- E eu pensei que ainda funcionava... - resmungou desiludido.
- Funcionava - conclui. - Depois do terceiro, não acredito mais nos seus desmaios - ri.
- Tudo bem - ele suspirou derrotado. - Eu ainda amo você - sorriu meigamente.
- Amo você - respondi e nos demos um selinho discreto.
As quatro crianças, que até então estavam quietas, se manifestaram:
- EW! - as quatro fizeram expressão de nojo.
Eu e Nickolas caímos na gargalhada.

Na vida, nada aparece de graça. Você aprende que para conseguir o que deseja tem que correr atrás. Aprende que para acertar é preciso errar. E quando acerta, acerta em cheio. Aprende que não vale a pena procurar pela alma gêmea quando basta olhar para o lado e ver olhos apaixonados tentando se esconder de você. Aprende que das pessoas mais frias, nascem as mais doces. Aprende que a vida nunca será justa. Exceto para os fortes. Com Nickolas, aprendi que as pessoas conseguem ser esquisitas. E o mundo estranho. Muito estranho.

(n.a: solte o play!)


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Hey, hey, hey

The sun is over the city but it’s an orange day
O sol está sobre a cidade, mas é um dia laranja
There’s a reason for looking up but I’m feeling down
Há razão para olhar para cima, mas estou me sentindo para baixo
You see I got to catch a plane but won’t buy a ticket
Veja, tenho que pegar um avião, mas não comprarei uma passagem
‘Cause it’s hard to just stop when you’re spinning around
Porque é difícil simplesmente parar quando você está girando

It’s a weird world, don’t you know it?
É um mundo estranho, você não sabe?
It’s a weird world and it won’t slow down
É um mundo estranho e ele não vai desacelerar
It’s a weird world no matter how you roll it
É um mundo estranho, não importa o quanto você o aprecie

Hey, hey, hey
Sweet baby

Meu amor
There’s a way to stand up and fight it
Há uma maneira de levantar e lutar por isso
Hey, hey, hey
Never give up but don’t let it wear out your love…

Nunca desista, mas não deixe seu amor desgastar

It’s a weird world
É um mundo estranho

Sent a message to a GI in the desert
Mandei uma mensagem para um soldado no deserto
Said “Thank you man, for bringing another dawn”
Disse “Obrigado cara, por trazer outro amanhecer”
Back here is her and me and we’re having our first baby
Aqui é ela e eu e nós vamos ter nosso primeiro filho
He’s out there taking ‘em on
Ele está por aí pegando todos eles

It’s a weird world and I know you know it
É um mundo estranho e eu sei que você sabe
It’s a weird world and it won’t slow down
É um mundo estranho e ele não vai desacelerar
It’s a weird world no matter how you roll it
É um mundo estranho, não importa o quanto você o aprecie

Hey, hey, hey
Sweet baby

Meu amor
There’s a way to stand up and fight it
Há uma maneira de levantar e lutar por isso
Hey, hey, hey
Never give up but don’t let it wear out your love…

Nunca desista, mas não deixe seu amor desgastar

I’m closing my eyes, but I’m starting to see
Estou fechando meus olhos, mas estou começando a ver
While he’s looking at you, she’s looking at me
Enquanto ele está olhando para você, ela está olhando para mim
The only thing it does is just keep me away from you
A única coisa que isso faz é me manter longe de você
Sure part of this place would cheer if I die
Claro que parte desse lugar comemoraria se eu morresse
But don’t let them take away your beautiful smile
Mas não os deixe tirarem seu lindo sorriso
Take away your beautiful smile
Tirarem o seu lindo sorriso
Take away your beautiful smile
Tirarem o seu lindo sorriso

Hey, hey, hey
Sweet baby

Meu amor
There’s a way just stand up and fight it
Há um jeito, apenas levante-se e lute
Hey, hey, hey
Sweet baby

Meu amor
There’s a way for you to decide it
Há um jeito de você decidir
Hey, hey, hey
Never give up but don’t let it wear out your love…

Nunca desista, mas não deixe seu amor desgastar

Hey, hey, hey
It’s a weird world, don’t you know it?

É um mundo estranho, você não sabe?
Hey, hey, hey
It’s a weird world, don’t you know it?

É um mundo estranho, você não sabe?
Hey, hey, hey
It’s a weird world, don’t you know it?

É um mundo estranho, você não sabe?
Hey, hey, hey

FIM ___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Bom, é isso. Weird world acabou. Mais uma fic minha finalizada e mais um adeus. Não prometo continuar daqui pra frente, não sei se haverá próximas fanfics. Provavelmente sim, já que vocês me mostraram esse mundo maravilhoso e será difícil me desgrudar dele. Amei muito escrever essa fic, ainda mais o final 2. Nickolas Carter é um ícone que sempre me acompanhará. Loirudo, eu te amo (L. Enfim, quero agradecer a vocês, leitoras amadas e fiéis, que não me abandonaram. Vocês fazem a escritar valer à pena. Amo DEMAIS todas. Beijos e - talvez - até a próxima <3.
Nathieli Cipolat Cervo.

Tópico

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